O que
representa para um indivíduo observar falhas em sua
fluência verbal ou em sua prontidão mnemônica?
Esquecer o nome de algum conhecido, não lembrar de
um recado ou de pagar uma conta, ou, ainda, não saber
onde guardou suas chaves?
Estas
falhas são fruto de um conjunto de fatores, alguns
próprios ao indivíduo e outros relacionados
ao ambiente social, ao contexto em que se encontra.
Se for um adolescente de classe média, é possível
que nem se dê conta do fato, caso seu referencial de
desempenho mnêmico esteja associado ao desempenho escolar.
Havendo insucesso, é provável entender ter estudado
pouco ou ter sido vítima de distração
decorrente dos apelos dos programas de fim de semana, namoros,
etc.
Se for
um adulto jovem, pode ser que justifique seus insucessos pela
sobrecarga de tarefas e responsabilidades. O cansaço
por dormir pouco e a má alimentação decorrente
da correria reforçariam esse estado. Assim, tenderia
a jogar para o futuro a melhora das funções
mnésicas, associando-a à conquista de uma vida
mais equilibrada.
Já
um adulto maduro não deixaria que tais reveses mnésicos
passassem com tanta tranqüilidade, principalmente aqueles
cuja capacidade laborativa estivesse centrada no seu rendimento
intelectual. Possivelmente, sua atenção, aos
poucos, seria atraída para a observação
dos momentos em que sua "performance" cognitiva
estivesse comprometida. A sensação de um possível
declínio próximo poderia começar a “assombrá-lo”,
numa fase em que se tem, com freqüência, a expectativa
de se viver o auge de uma carreira profissional e financeira,
e os sinais do envelhecimento se tornam mais aparentes. Este
seria um fator a mais de "stress" para esse grupo,
que atuaria favorecendo um mau desempenho mnésico.
Apreensão,
insegurança e medo do futuro são expressões
normalmente utilizadas por adultos idosos ao se referirem
às falhas de memória. Alguns, no entanto, reagem
tendo uma atitude de indiferença ou até de ironia,
dependendo de como estejam percebendo e vivendo o processo
de envelhecimento.
É
certo, pois, que o esquecimento ocorre em todas as etapas
da vida humana e resulta da interação de fatores
de ordem pessoal (genéticos e epigenéticos)
e sóciocultural. É importante revermos nossas
atitudes em face dos insucessos mnésicos, já
que tanto a conformidade quanto o alarmismo não favorecem
o reconhecimento de suas origens.
Quando
essa questão se transforma numa preocupação,
independentemente da idade, tendemos a associar este mau desempenho
ao envelhecimento, ou a um desfavorecimento pessoal —
menor capacidade, menor inteligência —, gerando,
assim, um estado de menos valia e conseqüentes atitudes
ineficientes que confirmam esta percepção distorcida
de nós mesmos. Deixamos de avaliar mais claramente
o que se passa, de buscar entendimento e consciência
de nossos processos internos e, portanto, deixamos ao acaso
o desenrolar de eventos que podem ou não estar expressando
um estado patológico, passível de tratamento
e, muitas vezes, reversível. Desse modo, nós
nos distanciamos de nosso potencial e de sua expressão
mais plena, aspectos relevantes na conquista de uma memória
eficaz e de um bom desempenho global. Por isso, vale a pena
conferir, caso sua memória ande "aprontando com
você"!
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