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As artimanhas da mémoria

 
  Dra. Tania Guerreiro e Equipe

 

 

 

O que representa para um indivíduo observar falhas em sua fluência verbal ou em sua prontidão mnemônica? Esquecer o nome de algum conhecido, não lembrar de um recado ou de pagar uma conta, ou, ainda, não saber onde guardou suas chaves?

Estas falhas são fruto de um conjunto de fatores, alguns próprios ao indivíduo e outros relacionados ao ambiente social, ao contexto em que se encontra.
Se for um adolescente de classe média, é possível que nem se dê conta do fato, caso seu referencial de desempenho mnêmico esteja associado ao desempenho escolar. Havendo insucesso, é provável entender ter estudado pouco ou ter sido vítima de distração decorrente dos apelos dos programas de fim de semana, namoros, etc.

Se for um adulto jovem, pode ser que justifique seus insucessos pela sobrecarga de tarefas e responsabilidades. O cansaço por dormir pouco e a má alimentação decorrente da correria reforçariam esse estado. Assim, tenderia a jogar para o futuro a melhora das funções mnésicas, associando-a à conquista de uma vida mais equilibrada.

Já um adulto maduro não deixaria que tais reveses mnésicos passassem com tanta tranqüilidade, principalmente aqueles cuja capacidade laborativa estivesse centrada no seu rendimento intelectual. Possivelmente, sua atenção, aos poucos, seria atraída para a observação dos momentos em que sua "performance" cognitiva estivesse comprometida. A sensação de um possível declínio próximo poderia começar a “assombrá-lo”, numa fase em que se tem, com freqüência, a expectativa de se viver o auge de uma carreira profissional e financeira, e os sinais do envelhecimento se tornam mais aparentes. Este seria um fator a mais de "stress" para esse grupo, que atuaria favorecendo um mau desempenho mnésico.

Apreensão, insegurança e medo do futuro são expressões normalmente utilizadas por adultos idosos ao se referirem às falhas de memória. Alguns, no entanto, reagem tendo uma atitude de indiferença ou até de ironia, dependendo de como estejam percebendo e vivendo o processo de envelhecimento.

É certo, pois, que o esquecimento ocorre em todas as etapas da vida humana e resulta da interação de fatores de ordem pessoal (genéticos e epigenéticos) e sóciocultural. É importante revermos nossas atitudes em face dos insucessos mnésicos, já que tanto a conformidade quanto o alarmismo não favorecem o reconhecimento de suas origens.

Quando essa questão se transforma numa preocupação, independentemente da idade, tendemos a associar este mau desempenho ao envelhecimento, ou a um desfavorecimento pessoal — menor capacidade, menor inteligência —, gerando, assim, um estado de menos valia e conseqüentes atitudes ineficientes que confirmam esta percepção distorcida de nós mesmos. Deixamos de avaliar mais claramente o que se passa, de buscar entendimento e consciência de nossos processos internos e, portanto, deixamos ao acaso o desenrolar de eventos que podem ou não estar expressando um estado patológico, passível de tratamento e, muitas vezes, reversível. Desse modo, nós nos distanciamos de nosso potencial e de sua expressão mais plena, aspectos relevantes na conquista de uma memória eficaz e de um bom desempenho global. Por isso, vale a pena conferir, caso sua memória ande "aprontando com você"!

 

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